Sábado e eu rebolava na cama, incapaz de me dar o descanso merecido depois de uma intensa semana de trabalho. Completamente desiludida pela expectativa que eu própria tinha criado, levantei-me e preparei o meu pequeno-almoço, enrolando-me de seguida num cobertor que vivia desde tempos imemoráveis no sofá. Entretive-me a ver televisão, sem dar conta das horas passarem, sem prestar atenção devida à Beatriz, que entrava e saía da sala, dissertando sobre as suas aventuras por terras nipónicas, até que... até que a campainha tocou, despertando-me da minha apatia.
- Ana, é para ti! - afirmou a B. - é um tal de Miguel.
- Miguel?! - fiz um ar pensativo e retorqui - Será o Miguel do café?
- Não sei, mas o teu leque de conhecimentos masculinos é diminuto, por isso a probabilidade é grande.
Segundos depois, abriu a porta e acompanhou-o até à sala, onde eu permanecia imóvel, tentando acalmar o coração, esse estúpido que só provocava ilusões, e o meu roso, que começava a ruborizar.
Mal o vi na soleira, levantei-me.
Mais uma vez, não foi necessário gastar o meu fluente vocabulário, ele falou por ambos...
- Olá! - cumprimentou. Manteve a distância, talvez por timidez, ou simplesmente por respeito à minha pessoa.
- Eu vou deixar-vos à vontade- Vou sair, Ana - falou a Beatriz. Comentário ignorado por nós...
- Desculpa aparecer assim em tua casa... Bem, eu queria desculpar-me por ontem - envolvido em tantos lamentos, o seu discurso foi ganhando confiança e centímetro a centímetro, foi-se aproximando de mim - Não correu conforme eu tinha esperado... Comecei a enrolar, a falar de trabalho... Pedi o teu contacto à tua tia e ela deu-mo juntamente com a tua morada. Decidi aparecer pessoalmente.
- Como é possível que ela tenha dado os meus dados a um estranho?!
- Para ela não sou um estranho.
- És sim - refutei, mas ele estava perto de mais, para eu poder me zangar...
- Frequento o café há mais tempo que tu. Tu nem há um ano lá vais... Eu vou lá há três anos.
- Não deixas de ser um estranho e eu a sobrinha!
- Vais continuar a bater na mesma tecla, ou podemos passar à fase seguinte?
- Fase seguinte?
- Sim, estava a pensar que podíamos ir jantar hoje. Uma espécie de segunda oportunidade. Aceitas?
O meu telemóvel tocou.
- Miguel, tenho que atender.
- Eu vou embora logo que digas que posso vir-te buscar logo.
Sorri e voltei a repetir.
- Tenho que atender.
- Até logo então.
Ouvi a porta bater e vi quem era que me ligava. Era a minha irmã. Talvez lhe retribuísse a chamada mais logo. Talvez....