Os TEXTOS que se seguem são pura FICÇÃO e qualquer semelhança com a REALIDADE é pura coincidência!
Este espaço permite-me dar-vos a conhecer todo o meu entusiasmo pelas palavras.


df @ 14:24

Sex, 27/03/09

A conversa com a Beatriz já estava a ser adiada desde que ela chegara do Japão. Não gostava de me intrometer na vida dela, tal como não gostava que o fizessem comigo, mas uma sensação estranha no estômago perseguia-me, especialmente desde o episódio desta manhã.

Acho que também estivera tão absorvida pelo meu relacionamento com o Miguel, se se podia chamar assim, e com o meu trabalho, que descurei, como já era hábito, as minhas amigas. Mas ainda bem que não éramos todas iguais, senão nestes mais de quinze anos, não nos tínhamos mantido juntas.

Ouvi a porta do quarto da Beatriz abrir-se e esperei que ela viesse até à sala, onde eu me encontrava.

Apareceu na soleira da porta, com o cabelo castanho claro desgrenhado, os olhos envoltos por uma pesada cor escura e o que restava da maquilhagem numa pintura destruída.

- Desculpa se disse alguma coisa que não devia hoje de manhã - pronunciou, baixinho. Sentou-se ao meu lado no sofá e disse - Foi a bebida a falar ou algo mais... Não sei muito bem... Não quero que o Miguel pense que tenho alguma coisa contra ele... Até porque o que mais quero é que sejas feliz e ele parece-me bem diferente lá daquele outro. - A Beatriz recusava-se a pronunciar o nome do Márcio, considerando-o uma aberração.

- Não te preocupes com isso, Bia.

Ela gostava quando a tratava assim. Dizia que se sentia de volta à curta infância feliz, até à altura em que os pais se tinham separado.

- Mas quero que me contes o que se passa contigo. Sei que gostas de noitadas, mas todos os dias? Além de que nunca foste inconsciente ao ponto de não estares em condições para ir trabalhar. Bia, passou-se alguma coisa no Japão?

Acho que tinha tocado na ferida.

- Não quero falar sobre isso - respondeu, fingindo prestar atenção ao filme romântico que passava na televisão. Pareceu-me que de repente a sua mente processava cada momento do ou dos seus problemas.

- Não quero insistir no assunto, mas acabaste de confirmar que algo se passou.

Demorou uns minutos até a sua boca se abrir e me dar alguma informação.




df @ 14:15

Qua, 25/03/09

A cama estava vazia. Eu estava sozinha. Olhei em volta do quarto para procurar algum vestígio da presença do Miguel ali, para saber se aquela noite não tinha sido imaginação minha...

A camisa. As calças. A camisa estava pendurada delicadamente nas costas da cadeira, que se encontrava ao lado da cómoda de madeira maciça, cor de mel; as calças de ganga estavam dobradas milimetricamente em cima do assento.

Mantive-me serena, o meu corpo nu, saboreando ainda as lembranças daquela noite cheia de prazeres satisfeitos.

Porém, a interrupção daquele momento foi feita por uma troca de palavras en tom azedo entre a Beatriz e o Miguel.

Estranhei o facto e quando me preparava para me levantar, para me pôr a par da situação, o Miguel entrou com um tabuleiro na mão e fechou a porta atrás das suas costas.

- A Beatriz já se levantou?

- Não - respondeu em desagrado perante a minha preocupação com ela - Acabou de chegar.

- O quê? - olhei para o relógio - Mas é quase meio-dia - exclamei.

- É porque dormiu em casa de alguém. Tal como eu... - Não disfarçou inicialmente a descontracção em relação ao assunto, mas depois o seu rosto suavizou.

- Estou preocupada com ela, Miguel - insisti. - Ela não anda bem. O que ela te disse? Nem parece dela... Quer dizer, ela devia estar habiutada, ela é que normalmente trazia estranhos aqui para casa...

- Pois... Ela disse-me que vocês têm regras em relação ao facto de um homem andar só de shorts pela casa... - disse, apontando o dedo para o seu corpo e exibindo um sorriso malicioso.

- Ela tem razão! Sempre lhe pedi para que não deixasse isso acontecer.

- Então, a culpa foi minha - deu-me um pedaço do bolo que eu tinha deixado em cima da mesa da cozinha, feito por mim na quinta-feira, numa tentativa de relaxamento. - Come e não te preocupes tanto.

- Vou tentar. Mas tenho que falar com ela na mesma. - Fiz uma pausa, mastigando o doce. Hesitei quanto à pergunta que tinha vontade de fazer, não querendo dar a sensação de que queria mais do que ele queria oferecer. Mas acabei por fazer - Tens planos para agora de tarde? Pensei que podíamos...

- Não posso - respondeu prontamente. - Prometi à minha mãe que me encontrava com ela e que jantava depois com ela. Cá para mim, ela quer-me apresentar o novo namordado, que conheceu nas suas aulas de danças de salão - rebolou os olhos e sorriu.

Torci o nariz perante a sua explicação.

- Mas podemo-nos encontrar amanhã - disse, tentando-se desculpar pela falha.

- Não dá - respondi. - Os meus pais vêm de Bragança para estar comigo.

- Está complicado então. Teremos de combinar qualquer coisa para segunda-feira só.

- Parece que sim.

Deu-me mais um pedaço de bolo à boca, enquanto ele comia uma bolacha de canela.

No tabuleiro estavam ainda duas canecas com café e leite, acompanhadas por um recipiente que continha açúcar.

Estava sentado à minha frente, com as pernas desnudas cruzadas. Eu tinha vestido uma camisola de alças de agodão branco. Nada mais.

Terminámos aquela pequena refeição, ele tirou-me o tabuleiro de cima das pernas e aproximou-se de mim. Beijou-me a testa, depois os olhos, em seguida o rosto e por fim a boca. Não nos cansávamos de nos tocar mutuamente. Parecia sempre uma novidade, apesar de não haver grandes segredos. De cada vez que estávamos juntos, surpreendíamo-nos, a intimidade não parava de aumentar, como se isso fosse possível.

Depois de mais uma vez nos termos entregado aos prazeres da carne, de um modo mais silencioso, pela presença da Beatriz no quarto ao lado, ele manteve o seu peso em cima do meu corpo, olhando-me, parecendo que ainda não estava satisfeito.

- Amo-te - declarou ele.

Não soube como reagir. Mas quis fugir ao olhar espectante dele e beijei-o com intensidade.

 

 




df @ 14:59

Seg, 23/03/09

Uma das heranças do pai do Miguel, eram quatro apartamentos praticamente iguais em locais próximos da praia do Homem do Leme, na Foz. Tinha sido ele a construí-las, enquanto se mantivera ligado à construção civil. Depois de se reformar, distribuiu-as irmãmente pelos filhos.

Portanto, o Miguel vivia entre o seu apartamento praticamente vazio, como me disse, e a casa da mãe, pois custava-lhe deixá-la para já a morar sozinha definitivamente.

Mas o pai tinha outros bens, que não tinham sido deixados escritos no testamento, a não ser uma colecção de selos valiosíssimos ao Miguel, pois este ajudara-o a reunir alguns dos mais raros. Esse facto não contribuía em nada para a sua família chegar a uma decisão quanto à partilha.

- Bem, estava a pensar que podíamos ver um filme.

As palavras dele tinham entrado na minha mente como uma leve brisa, tal era o meu cansaço.

- Acho que não consigo, Miguel. Espero que não leves a mal. Estou cansada e agora estou a pensar apenas em ir-me deitar.

- Não te preocupes. - Afastou-me dele cuidadosamente e levantou-se. - Também já está na minha hora. - Olhou o relógio cromado, verificando que já era quase uma da manhã. - É melhor ir-me embora.

Tentei colocar-me ao mesmo nível que ele, apesar da diferença da altura, e perguntei-lhe:

- Queres ficar a dormir cá?

- Tens a certeza?

- Se não a tivesse, não te perguntava, não era?

O sorriso desta vez foi mais realçado pelo brilho do seu olhar e abraçou-me.

 

Às quatro da manhã, conforme me indicava o relógio digital em cima da mesa de cabeceira de mogno, acordei. A televisão ainda se mantinha ligada. O programa era um documentário sobre a vida selvagem no National Geographic.

- Não consigo dormir - falou, ao reparar que eu me tinha mexido.

- Estranhaste a cama?

- Não se estranha a cama com companhia tão boa! - Virou-se para mim e fitou-me. - Depois daquela conversa sobre o meu pai, fiquei a pensar no assunto. Eu sei que já renunciei a tudo o que ainda poderia ter, mas...

- Não me tinhas dito isso...

- Pois... Quando te disse que não voltaríamos a ser interrompidos por este assunto, foi isso que resolvi e lhes disse. Estou farto de discussões. A minha família nunca foi muito normal, mas sempre me dei bem com os meus irmãos... Além disso, sinto-me bem assim. Tenho o meu trabalho, a minha casa, a minha mãe e agora tenho-te a ti. Não preciso de mais nada...

Dei-lhe um pequeno beijo no rosto e depois na boca. Aproximou-se de mim, colocou o seu braço esquerdo por cima do meu corpo e retribuiu-me o carinho. De cada vez que me tocava nos lábios, o beijo tornava-se mais íntimo. Em instantes, tirei a minha camisa de noite e ele tirou a pouca roupa com que se tinha deitado. Os nossos corpos colaram-se pele contra pele e o calor que nos rodeava, tornou-se num desejo incontrolável de ele me possuir e de eu o sentir dentro de mim.

Soltámos um úlitmo suspiro de prazer quando nos viemos e enroscámos os nossos corpo, que cada vez mais pareciam encaixar-me melhor.

 

 




df @ 20:43

Qui, 19/03/09

- Mas viste-os mesmo na...?

Interrompi-o.

- Vi-os aos beijos na sala. Deveriam estar tão absortos naquilo que nem deram pela minha entrada.

- A sério?! - a expressão dele passou de curiosidade para repugnância.

- Sim. Eu não consegui dizer nada. - Fiz uma pequena pausa e continuei - Senti-me tão enojada... tive uma enorme vontade de vomitar... Mas mantive-me firme, acho eu... Virei costas, deixei-lhe a chave de casa dele num móvel qualquer e fui-me embora. Olha, és a segunda pessoa que sabe disto, Miguel. Não consegui falar disto a mais ninguém, a não ser à Beatriz...

- Mas vocês encontraram-se depois? Para ele se explicar? Se é que havia alguma explicação...

- Ele veio cá a casa - falei, desviando a cara. Custava-me voltar a reviver aquela situação. - Ele tentou explicar-me as suas... as suas tendências... Disse-me que era comigo que queria estar, era a mim que amava, mas que não conseguia deixar de sentir uma enorme atracção e vontade de estar com aquele homem que vi... Senti-me tão magoada, tão traída, tão... - Senti que as lágrimas insistiam em descer rio abaixo, mas tentei segurar-me.  Acho que ainda hoje é-me difícil pensar nisso - confessei. Não pensei que fosse tão doloroso ainda, mas era-o.

- Imagino!

Puxou-me para ele e deixou-me encostar a cabeça no seu ombro. Ficámos abraçados durante uns minutos, sentados no sofá de imitação de pele, até que eu interrompi o saboroso silêncio:

- Disseste que o teu pai tinha falecido - disse, hesitantemente, em voz quase inaudível.

 




df @ 14:05

Ter, 17/03/09

Esta última viagem da Beatriz, a mais prolongada de todas, tinha trazido uma mudança nela. Depois da curta temporada de duas semanas na Alemanha e de um mês em França, que reparara que estava diferente. Havia um brilho no olhar, mas ela não quis partilhar comigo o motivo. Mas a estadia no Japão tinha sido pautada por um declínio de autenticidade e de felicidade na voz. Notei, aquando o telefonam dela na altura em que parti o pé, que tinha vontade de regressar, apesar do profissionalismo dela prevalecer na maior parte das vezes. Resumindo, a Beatriz estava diferente e eu não acreditava que fosse a questão de ter chegado aos trinta nem somente o cansaço das viagens, que ela tanto adorava.

- Não terá conhecido alguém? - perguntou o Miguel, partindo já as fatias de pizza.

Fiquei pensativa por momentos, mas não acreditava que realmente um homem a tenha feito baixar a guarda.

- Talvez... - respondi.

- Às vezes basta conhecermos alguém, para ficarmos diferentes - comentou, limpando-me o canto da boca, que fica ficado com um pouco de queijo derretido e beijou-me. Diferentes no sentido de ganharmos um novo significado nas nossas vidas - continuou. Percebi que estava a falar dele próprio.

- A Beatriz é uma pessoa extraordinária e o que eu mais queria era que ela fosse feliz. Eu sei que ela lutou muito para chegar à posição que tem na empresa. Ela é uma das pessoas responsáveis pela formação da empresa aqui na Europa. A Beatriz teve que abdicar de muito, mas acho que é capaz de ter chegado a uma fase que quer mais.

- E tu?

Que pergunta. O que queria eu?

- Os meus únicos objectivos eram sair de Bragança e entrar numa faculdade aqui no Porto, depois logo se via. Consegui isso e consegui manter-me cá, trabalhar cá... Acho que finalmente sinto que encontrei o meu lugar...

- Não estava a falar nisso - deu um sorriso dissimulado.

- Pois... Para ser sincera, até hoje só houve um homem que me marcou, de resto foram tudo paixonetas de pouca duração. Dediquei sempre mais tempo ao meu trabalho. Foi como te disse há uns dias, senti sempre mais pressão para me realizar profissionalmente do que amorosamente... - Olhei-o nos olhos e sorri. Era bom poder falar com ele sobre todos os assuntos, sem nenhum entrave, sem nenhum constrangimento.

- O que aconteceu com esse homem? - questionou, os os seus olhos perscrutando a minha reacção.

- Queres mesmo saber?

- E porque não?

Contei-lhe o essencial, sem entrar em pormenores desnecessários, até chegar ao motivo pelo fim da minha relação com o Márcio.

- Cada um de nós tinha a chave do apartamento do outro. Um dia decidi fazer-lhe uma surpresa, mas quem ficou surpreendia fui eu.

- Deixa-me adivinhar: estava com uma mulher!

- Não. - Baixei a cabeça, com vergonha do que vi, como se tivesse sido culpa minha. - Estava com um homem... 

 

 

 



DESAFIO

Coloquei-vos há tempos o desafio de darem um TÍTULO à nova história que se irá desenvolver nos próximos meses aqui. Ainda não vos dei muita informação, a não ser que as personagens se chamam Rafael e Juliana e que trabalham na mesma empresa. Conforme vou publicando os posts, certamente irão perceber que há muitos segredos para serem revelados...
Além do título, também espero que deixem nos comentários o vosso feedback.
Obrigado
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Rubricas:

Além de uma nova história a decorrer no blog, acompanhem também a nova rubrica do blog 'PERDIDOS E ACHADOS DA VIDA', pequenos textos que incidem sobre... Leiam e descubram...

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