Os TEXTOS que se seguem são pura FICÇÃO e qualquer semelhança com a REALIDADE é pura coincidência!
Este espaço permite-me dar-vos a conhecer todo o meu entusiasmo pelas palavras.


df @ 12:17

Qua, 30/09/09

O dia seguinte foi pautado por dois pensamentos: a proposta que o Tiago me fez de regressar a Lisboa e largar tudo e todos e o beijo intenso que tinha trocado com o Ricardo.

Não me questionava se gostava mais de um ou de outro, não me perguntava por qual optaria, se chegasse a surgir essa necessidade.

Não era sequer uma equação existente, porque havia pelo menos um facto: tinha decidido separar-me do Tiago já há quase três meses. O problema em causa eram os meus sentimentos por ele e se estes se mantinham praticamente inalteráveis desde o momento em que nos conhecemos. Sim, porque a amizade e o amor que sentia pelo Ricardo apenas tinham ficado num canto do meu inconsciente, a aguardar o momento mais oportuno de reaparecerem...

 

Sem pedir qualquer tipo de esclarecimento, até porque achava que não o devia fazer, a Adriana mal entrou na loja pela manhã, dirigiu-se a mim e pediu-me desculpa por não me ter dito que se ia encontrar com o Tiago fora do horário de trabalho.

- A sério, Diana, só o fiz porque queria saber o que se passava convosco... Quando vos conheci, vocês pareciam sempre tão felizes e agora...

- As aparências iludem, Dri - ataquei.

- Fiquei preocupada com a sua conversa de sexta-feira - continuou ela - Não me quis dizer para onde ia, para não dizer a ninguém...

- Isso já passou, Adriana. Não é preciso voltarmos a tocar no assunto.

Inclinou-se mais um pouco no balcão, posição que praticamente mantinha desde que chegara e baixou o tom de voz, quase num sussurro:

- Desculpe estar a perguntar, mas está tudo bem?

- Sim, está tudo bem - menti.

- Desculpe estar a insistir, mas já me tinha dito que você e o Tiago não viviam juntos, mas tinham ficado amigos, portanto sempre pensei que acabariam por se entender... Mas depois de sexta-feira... Achei que realmente algo de grave tinha acontecido...

Nas inúmeras horas livres que tínhamos na ausência de clientes, conversávamos sobre vários assuntos, mas da minha parte nunca me alongava muito.

Reparara, pouco tempo depois de contratar a Dri, que ela se apegava com facilidade às pessoas e, como tal, criara uma certa dependência de nós os dois, ainda que acompanhada por um certo ciúme e uma paixoneta pelo Tiago, que esta não alimentava, mas que lhe fazia muito bem ao ego.

A confiança que existia entre nós era suficiente para a relação profissional resultar - ela era muito boa vendedora - e era aparentemente segura para contarmos coisas uma à outra.

Não éramos amigas, éramos colegas de trabalho. Mas isto era o meu ponto de vista...

Nas longas horas de solidão comercial, entre uma leitura de jornal ou de uma revista cor-de-rosa, a Adriana confidenciava-me determinadas situações da sua vida privada, que eu não era capaz de contar, se não considerasse a minha ouvinte uma amiga.

Como tal, foi com alguma relutância que sentia aquela preocupação.

- Eu e o Tiago vamo-nos divorciar. Agora é mesmo definitivo - afirmei. Sempre que dizia isto, as minhas palavras eram acompanhadas por um certo friozinho no estômago.

Eu continuava a gostar muito dele, mas não sabia se era suficiente para aguentar as longas ausências passadas no café com supostos amigos, as exigências como lojista e dona de casa, mas acima de tudo, a relutância do Tiago em me aceitar como uma pessoa com um passado violento e repressor e em me aceitar, até esta altura, como uma pessoas não maternal...




df @ 19:03

Sex, 25/09/09

Depois do jantar e de uma chamada de atenção para os malefícios do tabaco, voltámo-nos a sentar no sofá.

Eu e o Ricardo tínhamos começado a fumar aproximadamente com doze anos, influenciados um pelo outro e por outros colegas de escola. Entretanto, ele ganhou consciência de que aquilo só o prejudicava, quando estava no segundo ano da faculdade. Eu não. Tinha deixado de fumar durante dois anos, mas desde que regressara para o Norte, que de tempos a tempos voltava a cair na tentação. Até podia ficar uma, duas semanas sem fumar, mas depois o vício de boca era mais forte que eu...

- Tenho ali uma coisa para te mostrar - disse.

Levantei-me e fui até a um armário que tinha numa pequena divisão, onde arrumava entre outras coisas os casacos e os guarda-chuvas.

- Sinceramente, já tenho isto aqui há tanto tempo, que já nem me lembrava... - Era uma caixa de cartão, com colagens de objectos que me faziam recordar a pequena parte em que fora minimamente feliz. Regressei à sala e, deste feita, sentei-me mais perto dele. - Com o Tiago nunca pude recordar estes momentos... Primeiro, porque ele ficava com ciúmes da relação que tive contigo e depois porque o interesse dele pelo meu passado nunca foi muito... - lamentei.

- Mas ele sabe que o teu te batia?

- Sim, sabe. Mas acha que eu exagero nas coisas que conto...

- A sério?!

- Sim. Acho que ele tem uma certa dificuldade em perceber que nem todos os pais são iguais. Ele teve uma infância feliz, os pais dele são excelentes pessoas e, como tal, tem uma falsa ideia de que todos tiveram uma educação assim. Mas chega de falar sobre ele - disse, abrindo a caixa e retirando alguns objectos de lá: umas fotos nossas, guardanapos de restaurantes onde íamos e nos aventurávamos a escrever uns poemas infantis, bilhetes de cinema...

- Lembro-me deste filme. - Tu assustaste-te com uma cena de suspense e agarraste a minha mão com força, que quase ficava branca...

- Não voltei a vê-lo - afirmei.

- Então podíamos arranjá-lo e vê-lo, para ver se continuas a mesma assustadiça daqueles tempos...

- Que engraçadinho!

Entre mais algumas recordações, o tempo foi passando e a noite foi dando lugar à madrugada.

- Já passa da uma da manhã. É melhor ir andando.

- A que horas entras?

- Tenho que estar na escola antes das onze horas, mas mesmo assim é melhor ir andando.

- Sim, tens razão.

Acompanhei-o até à porta.

Ele aproximou-se de mim e deu-me um beijo em sinal de respeito na testa, um carinhoso na ponta do nariz e encostou os seus lábios aos meus, intentando um beijo mais prolongado, ao qual não fui alheia.

Deixei-me envolver pelo seu toque quente, hesitando em colocar as minhas mãos no corpo dele como as minhas hormonas ordenavam.

Senti todo o desejo dele e o meu sobreporem-se à sanidade mental e, em instantes, fui procurando um apoio para as costas, encontrando a parede do lado oposto à porta de saída.

- Ai! - queixei-me.

- Magoei-te? Desculpa.

- Não - respondi. - Não me magoaste. Bati com a cabeça neste maldito quadro - injuriei, levando a mão à nuca.

- Posso tirá-lo... - disse, o seu sorriso malandro declarou tudo o que tinha em mente.

- Não, não é preciso - Assumi uma posição séria num momento de clareza e disse - É melhor ficarmos por aqui. Desculpa.

- Sim, tens razão. Também já é tarde. Depois falamos então.

Voltou a beijar-me a testa e saiu.




df @ 20:47

Qui, 17/09/09

Acendi umas velas aromáticas e baixei a intensidade da luz.

Apesar do ambiente romântico, queria somente colocar a minha sala aconchegante, com um ar pacíficador.

Enquanto o jantar estava a ser confeccionado, sentámo-nos no sofá, um em cada canto.

A noite esfriara muito e não obstante o facto de ter colocado vários tapetes pela casa, o meu lar era frio.

- Estás com frio? - questionou ele, vendo-me a aconchegar ao meu cobertor azul escuro.

- Um pouco... - respondi.

- A primeira vez que nos encontrámos no pinhal atrás da casa dos teus pais, quiseste vir logo embora. Bem que tentei convencer-te a ficar mais um pouco, mas não adiantou. Estavas gelada...

- Eu lembro-me. Já da segunda vez, levei umas camisolas mais grossas. Também começamos a namorar no Inverno...

- Pois foi...

- Éramos umas crianças... - lancei, sabendo que ele estava a recordar os mesmos momentos da mesma forma saudosa que eu.

- Tínhamos treze, catorze anos. Não éramos assim tão pequenos! Acho que tínhamos bastante consciência do que se passava connosco, do que se passa à nossa volta. Maior parte dos meus miúdos não vê nada... Ou pelo menos finge muito bem...

- Eu fingia muito bem perante os meus professores - alvitrei.

- Eu sei. Já eu não! Andava constantemente revoltado com o que o teu pai te fazia.

- Quando algumas queixas de mau comportamento começaram a chegar aos ouvidos do meu pai, ele disse logo que eras uma má influência, que era mais um motivo para ele não me deixar aproximar de ti.

- É um ciclo vicioso mesmo. Eu segui a via do ensino para poder ajudar algumas crianças que se encontravam na mesma situação que tu, porque achava que os professores deviam ser a nossa segunda família. Mas eles escondem os seus problemas muito bem e muitas vezes não nos deixam aproximar. Não se abrem connosco e mesmo quando lhe dámos alguma coisa em troca, como deixá-los jogar no computador por alguns minutos, eles afastam-se.

- Deve ser difícil. Quando somos crianças, dezemos que quando formos adultos vamos conseguir mudar alguma coisa, mas a única coisa que conseguimos é simplesmente sobreviver a cada dia que passa.

- É verdade... Sinto-me impotente por vezes quando os tento ajudar, mas acho que se não tentar, não me sinto bem comigo mesmo.

- Já deixei de ter esse sentimento altruísta. A vida ensinou-me que se não cuidarmos de nós próprios, nunca conseguremos ser felizes.

- As coisas nem sempre são assim tão lineares - retorquiu ele, preparando.se para se levantar.

- Não, não são. Mas tento levar essa máxima ao máximo na minha vida, Ricardo. - levantei-me também e fomos até à cozinha.

Ele verificou a lasanha no forno e começou a abrir as portas dos armários à procura de louça para pôr na mesa da sala. Eu, por minha vez, encetei a tarefa de ir até à lavandaria, abrir uma janela por completo e fumar um cigarro.

 




df @ 13:18

Sab, 12/09/09

- Interrompi alguma coisa?

- Nada de importante, Ricardo. Olha, já podes fechar a porta. Vou só acabar aqui as contas e já vamos embora. Senta-te aí no sofá.

- Precisas que te ajude em alguma coisa?

- Não, obrigado - respondi.

Aquela proposta do Tiago ecoava na minha mente e assumia cada vez uma maior importância naquele momento.

Dirigi-me até ao pequeno armazém nas traseiras da loja, onde mantinha um pequeno escritório, entrei e fechei a porta. A enorme vontade de chorar voltou, perante a percepção de que muita coisa podia ter sido diferente com apenas uma decisão: ficar em Lisboa há uns três anos. Ou daí até não...

Enxaguei as escassas lágrimas que me permiti derramar com um pequeno lenço de papel, que estava esquecido há muito tempo na mesa do computador. Respirei fundo e voltei para a loja.

- Olha, Ricardo, não tenho vontade de ir jantar fora. Importas-te de irmos para minha casa?

- Claro que não - respondeu, levantando-se do banco onde se tinha instalado. Olhou-me directamente nos olhos, aproximando-se a passos largos de mim - O que se passa?

- Não se passa nada.

- Então porque tenho a impressão de que estiveste a chorar?

- É mesmo só impressão, Ricardo. - afirmei, virando-lhe as costas, dirigindo-me para o balcão, onde tinha a minha carteira.

- Não me queres contar, pois não?

- Porra, Ricardo - voltei-me para ele - Já te disse que não se passa nada! - exaltei-me.

- Não, Diana, alguma coisa se passa. Conheço-te bem demais. O que é que ele te fez?

- Ele? Ele quem?

- Ora, não te faças de desentendida. O teu marido, claro está.

- O meu ex-marido! - corrigi.

- Então sempre se passou alguma coisa... - adiantou.

Respirei fundo. Voltei a respirar fundo. Não me queria chatear com o Ricardo, não me queria afastar dele. Gostava de estar com ele, de conversar com ele. Respirei fundo mais uma vez.

- Fazemos assim, Ricardo. Eu admito que alguma coisa se passou, mas é um assunto em que eu ainda preciso de pensar. Por isso, não vamos voltar a tocar nisto. Pode ser? Podemos ir jantar agora? Tenho uma lasanha em casa. É só colocar no forno...

Ele anuiu contrariado e fomos, cada um no seu carro, para minha casa.

 




df @ 17:40

Qui, 10/09/09

Reservara o dia para fazer umas pequenas alterações. Colocar um modelo de sapato na prateleira de baixo em vez da de cima, dar destaque a um mocassin novo que tinha chegado, evidenciar umas meias com novos motivos que eu tinha encomendado, fazer uma limpeza ali e acolá e, por fim ou em intermédio com essas funções, pôr em dia a conversa com a Leonor, dona do café ao lado da sapataria, onde às vezes eu e a Adriana íamos lanchar.

Tentei manter-me activa, concentrada no trabalho, que era a melhor solução para uma tarde algo fria.

- Boa tarde - ouvi. O cumprimento masculino já me era bastante familiar... E talvez por isso e por não esperar tal aparição, deixei cair a caixa de sapatos que tinha na mão ao chão, o que ecoou um pouco pela loja.

Rapidamente ele aproximou-se de mim e ajudou-me a arrumar as coisas.

- O que estás aqui a fazer? - perguntei. Idiota, pensei logo depois. - Esquece, tens todo o direito de cá apareceres.

- Estava a ver que não... - ironizou. - Onde está a Adriana?

- Dispensei-a hoje de tarde. Tenho que começar a compensar a rapariga pelas minhas ausências - respondi.

- Ela não me disse nada. Tínhamos combinado ir tomar m café quando ela saísse.

- Pois, acredito. Mas como vês só cá estou eu. Se quiseres falar com ela, sabes o número de telemóvel dela e, imagina, até sabes onde ela mora. Já viste a tua sorte? - satirizei.

- Noto aí uma pontinha de ciúmes, Diana? - questionou, chegando-se ao balcão, onde eu entretanto me tinha refugiado.

- Estás a ter-te em alta consideração, Tiago. Já deixei de ter motivos para sentir ciúmes - Mentirosa - Vamo-nos divorciar. Se sentisse ciúmes, isso significarias que continuava a gostar de ti, o que não é verdade - Mentirosa.

- Esperas que acredite nisso?

- Mas tu estás a gozar comigo, Tiago? - repliquei, não querendo levantar o tom de voz, não fosse algum cliente entrar na loja à última da hora - Depois de tudo o que foi dito há dias, chegas aqui como se nada fosse? Estou muito magoada contigo e já te disse que se acabaram as promessas de que tudo irá melhorar, de que tudo irá ficar melhor...

- E se largássemos tudo o que temos aqui e voltássemos para Lisboa onde fomos verdadeiramente felizes?

A pergunta ficou a pairar no ar. Os nossos olhares presos. O silêncio irrompeu entre nós e só foi quebrado pela entrada do Ricardo em cena.

- Olá, Diana. Boa tarde - retorquiu para o Tiago. - Desculpa, não sabia que...

- Eu já estava de saída mesmo. - Olhou-me tristemente, o rosto a transbordar desalento. Baixou a cabeça e saiu como se sentisse derrotado.

 



DESAFIO

Coloquei-vos há tempos o desafio de darem um TÍTULO à nova história que se irá desenvolver nos próximos meses aqui. Ainda não vos dei muita informação, a não ser que as personagens se chamam Rafael e Juliana e que trabalham na mesma empresa. Conforme vou publicando os posts, certamente irão perceber que há muitos segredos para serem revelados...
Além do título, também espero que deixem nos comentários o vosso feedback.
Obrigado
A Gerência

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Rubricas:

Além de uma nova história a decorrer no blog, acompanhem também a nova rubrica do blog 'PERDIDOS E ACHADOS DA VIDA', pequenos textos que incidem sobre... Leiam e descubram...

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