Os TEXTOS que se seguem são pura FICÇÃO e qualquer semelhança com a REALIDADE é pura coincidência!
Este espaço permite-me dar-vos a conhecer todo o meu entusiasmo pelas palavras.


df @ 17:22

Qui, 21/01/10

Começa hoje o segundo capítulo, com mais segredos a serem revelados. Leiam e aproveitem o prazer da leitura.

 

CAPÌTULO DOIS - PARTE UM

 

- José, posso falar contigo um segundo?

- Claro - respondeu ele.

O escritório dele era o maior de todos da empresa. Além do espaço com a sua secretária de mogno brilhante, do lado oposto havia uma grande mesa oval, para doze pessoas, onde normalmente decorria um grande número de reuniões.

Juliana sentou-se no sofá de eco pele preto, que antecedia duas cadeiras e a mesa do sócio.

- Passa-se alguma coisa? Soube que tu e o Rafael voltaram a discutir ontem...

- Sim, é verdade. Olha, não vou estar com rodeios, até porque já sabes que não faz o meu feitio. Vou directa ao assunto. O Rafael jantou em minha casa ontem à noite e eu contei-lhe... Eu falei com ele sobre o Filipe, sobre a empresa, ele até conheceu o Dinis e deu-se bem com ele, imagina... - descarregou tudo de uma vez, porque ainda não sabia exactamente quais seriam as consequências de tudo o que acontecera e agora que o dizia em voz alta tudo parecia ainda mais complicado.

- Decidiste dar-lhe uma oportunidade? - questionou ele, contornando a secretária e sentando-se ao lado dela.

- O problema é esse, José. Convidei-o para ir lá a casa para podermos conversar à-vontade, mas para ser uma conversa definitiva. Eu queria que ele entendesse que as coisas não iriam dar certo, mas...

- Mas como se costuma dizer, virou-se o feitiço contra o feiticeiro.

- Sim...

- Qual é o teu receio agora, Ju?

- Receio que ele agora não saiba distinguir as coisas. Uma coisa é quando estamos aqui no trabalho, outra coisa é quando estamos fora dele.

- Ju, nem todos temos essa brilhante capacidade de ver tudo a preto e branco. Somos humanos e infelizmente por vezes não conseguimos dissociar o trabalho da vida pessoal.

- Mas devíamos ser todos capazes disso.

- Olha, Ju, - falou, no seu típico tom fraternal com que habitualmente lhe presenteava quando ela lhe colocava um problema - tu sabes que nunca fui contra relacionamentos aqui na empresa, até porque - volto a repetir - somos todos humanos e por vezes é difícil controlarmos o que sentimos, eu normalmente recomendo apenas que tentem não trazer muito da relação para aqui. Quanto a vocês, com relação ou sem relação, discutem tanto que só Deus sabe porquê. Por isso, Ju, se achas que te podes deixar envolver com ele, nem que seja um pouco, aproveita. Conheço o Rafael muito bem e ele tornou-se praticamente o meu braço direito, por isso, se procuras a minha autorização está dada.

- Sinto que estou a trair o Filipe - admitiu ela, a medo, olhando para a janela, que estava por detrás da secretária.

- Ju, não admito que digas isso. Nós os dois gostávamos muito dele e nós os dois sabemos também o bom homem que ele era. Mas ele é que nos traiu, ele é que não soube que nós estávamos ali para ele, para o ajudar a ultrapassar tudo.

- Mas...

- Não há mas nem meio mas. Se queres passar mais tempo com o Rafael, se o queres conhecer, aproveita querida.

- Sabes quem mais ele conheceu ontem?

- A dona Isabelinha. Não acredito! - exclamou, rindo.




df @ 15:19

Seg, 11/01/10

- Quer dizer... Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha nove anos. Foi muito difícil e eu só me apercebi que as coisas estavam mesmo mal quando eles me falaram que se iam separar. Por um lado, acho que foi positivo as diferenças deles nunca terem interferido na minha rotina. Não passei pelo medo, pelo receio da separação. Aconteceu e pronto. Depois a adaptação foi muito difícil, mas já o ia ser de qualquer maneira e de qualquer maneira eu não ia aceitar... Mas acabei por superar tudo. A minha mãe foi um exemplo de mulher, ainda é um exemplo, como é evidente... Eu sei que tu também o és e tenho a certeza que o Dinis irá crescer bem.

- Também espero, mas tenho receio por ele. Tenho... - não se permitiu continuar e deixou que a interrupção da empregada Ana fosse suficiente para evitar mais uma declaração tão íntima. - Dinis, anda jantar.

Depois do simples repasto - arroz branco com legumes e frango grelhado -, sentaram-se no sofá, prosseguindo com um diálogo calmo, enquanto saboreavam o café.

- O Dinis anda num infantário?

- Sim. Um infantário caríssimo, pago pela minha sogra - ironizou.

- Ex-sogra - corrigiu ele.

- Sim, ex-sogra. Ela não queria que ele fosse para o infantário, mas eu queria. Por ela, ele ficava sempre ao cuidado da ama, mas eu queria que ele tivesse contacto com meninos da idade dele. Quando finalmente a convenci, a contrapartida foi ela escolher o infantário.

- Mas tens na mesma a ama...

- Sim - esclareceu. -  A Ema vai buscar o Dinis ao infantário, porque nunca posso e fica com ele até eu chegar. Durante o dia, ela estuda, apesar da minha sogra tê-la como uma empregada normal. Mas eu quis dar-lhe a oportunidade dela ir para a faculdade...

- Mamã! - chamou o Dinis.

- Sim, amor. Anda cá, senta-te aqui no nosso meio.

- Ele é um amor! - elogiou o Rafael.

- Ele trata-me assim quando quer alguma coisa, não é, meu rei? Ou então quando está a ficar com sono...

- Não sejas má. Ele parece tão meigo.

- Eu sei e é muito meiguinho mesmo e como praticamente só nos temos um ao outro, somos muito chegados. Olha, já está a dormir...

Naquele preciso momento, a Ema entrou na sala.

- Precisas de alguma coisa? - perguntou ela.

- Por acaso, até preciso. Importas-te de me levar o Dinis para a cama? Depois, já podes ir embora.

- Claro - respondeu a empregada, mantendo-se sempre muito afável.

Acordou-o com cuidado e pegou-o pela mão, ajudando-o a levantar-se do colo de Juliana. Apesar de birrento, Dinis acompanhou-a, deixando-os a sós.

- Posso-te dizer uma coisa? - questionou Rafael.

- Claro.

- Prometes não te zangar comigo?

Ela sorriu.

- A verdade é que não te conheço muito bem e, apesar disso, gostava que me desse uma oportunidade, mas uma coisa te digo: podes ser rica, abastada, o que lhe quiseres chamar, mas esta casa não tem nada a ver contigo!

Juliana soltou uma gargalhada. Ele fazia-a sentir tão bem, tão descontraída. Era tão bom ouvinte. Era uma lufada de ar fresco na sua vida e, de facto, surpreendeu-a com o que disse. Voltou a rir-se, lembrando-se mais uma vez das palavras dele.

Ela tirara conclusões precipitadas pelo pouco que conhecia dele. Sabia que ele conseguia ser arrogante, cínico e ambicioso, mas parecia que o era somente na sua vida profissional. Porém, na sua vida pessoal, a ambição era um factor predominante. Não desistira dela, apesar de todas as rejeições que levara ao longo de meses, especialmente depois do incidente na discoteca.

- Eu não gosto desta casa, essa é que é a verdade, mas não tenho para onde ir.

- Ela é enorme e parece que ainda tem muito terreno à volta, que deve valer uma fortuna,

- Eu gostava de ter uma casa mais pequena, com dois quartos, com um pequeno pátio para o Dinis brincar. Isso já era suficiente para nós os dois. Mas a verdade é que é um risco enorme sair daqui e não posso vendê-la - admitiu - Esta casa pertence a mim e ao Dinis, mas não posso vendê-la. 

- Não o podes ou não o queres fazer? - questionou-a, desculpando-se imediatamente a seguir pela insistência no assunto, depois de ver o desagrado e a tristeza no seu rosto.

- Não faz mal. Esta casa foi uma prenda de casamento dos meus sogros, ou seja, era deles. A verdade é que a minha sogra ameaça-me que se pensar sequer em sair daqui, tira-me o Dinis.

- O quê? Ela não pode fazer isso.

- Acredita que pode.

- E achas que ela conseguia?
- Por enquanto, não quero mesmo pensar nisso. Mas o certo é que ela tem mais condições financeiras e muitos conhecimentos, entendes? Não quero arriscar. Por enquanto, não quero mesmo arriscar. - Repetiu - Adio isto há quase cinco anos, desde que o Filipe morreu. Nunca sinto que é o momento certo de a enfrentar, porque o risco, como te disse, é demasiado elevado.

- E com isso colocas o teu bem-estar em causa?

- Não, não ponho. Sabes porquê? Porque a minha vida gira em torno do Dinis e do meu trabalho e enquanto isso correr bem, eu estou naturalmente bem.

- E não pensas sequer em querer mais para ti?




df @ 19:50

Qui, 07/01/10

A segunda sala da casa era totalmente oposta ao que tinha visto até ali.

Visualmente era um espaço bem mais acolhedor. O chão era de madeira escura, em parquet, e as paredes eram pintadas de beije. A mobília era de traços lisos, em wengué, bastante moderna. Apesar de dividida igualmente em sala de estar e de jantar, era bem mais pequena do que aquela onde tinha estado anteriormente. A mesa de jantar era rectangular, com vidro temperado no centro e as cadeiras, da mesma qualidade de madeira, eram forradas em pele beije. O tapete, tanto o que cobria o espaço da mesa como o que estava entre o sofá e o pequeno móvel da televisão eram vermelhos, a contrastar com todo aquele ambiente relaxante.

Esta divisão não estava tão aprumadamente limpa. Passava definitivamente a ideia de que era habitável. Haviam papéis em cima do aparador e brinquedos do Dinis espalhados pelo chão e num cesto. E finalmente haviam fotografias dela e do filho, algumas pequenas em que eles apareciam acompanhadas por um homem, que Rafael, pelas poucas lembranças que tinha, supôs que fosse o falecido marido. Havia ainda uma moldura com uma fotografia em que eles apareciam com um casal com uma idade avançada. Não sabia se seriam os pais ou os sogros... E ainda uma outra em que Juliana aparecia com duas pessoas, muito parecidas com ela, feliz, na qual ele deduziu que seriam os irmãos.

- Vejo que estás boquiaberto - comentou ela, vendo que Rafael observava cada centímetro daquela divisão. - Dinis, se quiseres, liga a televisão, mas não ligues a playstation, porque o jantar já vai ser servido.

Ela dirigiu-se para a mesa de jantar e puxou uma das cadeiras de costas altas. Convidou-o a fazer o mesmo, indicando-lhe a cadeira em frente.

- Esta sala foi remodelada por mim e pelo Filipe mesmo no início do nosso casamento e depois adaptámo-la com um espaço para o Dinis brincar. Por isso, é tão diferente da outra. - falou ela, sem o enfrentar.

Eram tantas as recordações que estavam a começar a ficar novamente à superfície com aquela conversa... Mas era necessário fazer-lhe todas aquelas confidências, para não o enganar, para não lhe dar falsas esperanças.

- Antes desta sala, remodelámos todo o andar superior, à excepção de um dos quartos, que seria para quando os meus sogros ficassem cá. A minha sogra, quer dizer, a minha ex-sogra, adora o requinte antiquado, se é que se pode dizer as coisas assim. Alterámos o pátio, criando uma piscina e ainda um pequeno anexo, com cozinha regional e sala.

- Não deu para perceber muito bem, já estava a ficar escuro quando chegámos, mas o terreno parece grande.

- Sim, grande demais até. Antes da morte do Filipe, ainda vendemos uma parte do terreno, contra a vontade da minha sogra.

- Porque é que não alteraste o resto da casa?

- Agora já não posso alterar mais nada - retorquiu.

- Porquê?

- É uma longa história, Rafael.

- Vou ficar para jantar, certo? Então ainda acho que tenho tempo - disse, sorrindo.

Juliana devolveu-lhe o sorriso, mas este rapidamente desapareceu.

- O Dinis, como é óbvio, não tem qualquer tipo de lembrança do pai, até porque só tinha oito meses de vida, e eu falo com ele apenas algumas coisas. Ele sabe que o pai morreu, que foi para o céu, porque tentou fazer algo de bom...

Juliana sentiu necessidade de baixar o tom de voz, para o que ia dizer a seguir e segredou:

- O Filipe parou o carro no meio da Ponte do Infante, pouco depois desta ser inaugurada, e atirou-se de lá. Foi... Bem, o que eu contei ao Dinis foi que o pai ao tentar convencer alguém a não se atirar, escorregou e acabou por ser ele a cair... Enquanto ele é pequeno, ele acredita. Daqui a uns anos, acredito que ele me vá perguntar a verdade e ficará zangado comigo, mas acho que fiz o melhor para ele.

- Também acho que sim. É doloroso quando os miúdos dão conta que falta alguma coisa ou que algo não está bem. Às vezes, é preciso criarmos essas falsas expectativas.

- Falas por experiência própria?




df @ 14:36

Seg, 04/01/10

- Chegou o segundo motivo - respondeu ela, com um grande sorriso nos lábios.

Rafael nunca a vira daquela forma tão brilhante, tão esplendorosa. Aquilo acutilou-lhe ainda mais a curiosidade sobre aquela mulher.

Apressou-se a segui-la para fora do escritório tão impessoal para o corredor gélido.

- Mamã, mamã! - gritou uma criança, com um sorriso fácil.

O rapaz aproximou-se rapidamente da mãe e deu-lhe um carinhoso beijo na bochecha.

- Anda cá, amor. A mãe quer-te apresentar um amigo.

Ele estendeu a mão a Rafael e apressou-se a apresentar-se como o Dinis de cinco anos, quase seis.

- Boa noite, Dinis! Eu sou o Rafael.

- Mãe, é como nas Tartarugas Ninjas!

- É sim, Dinis - respondeu ela, completamente babada pelo filho. Sorriu para ele e depois disse - Dinis, sabes o que vais fazer agora?

- Vou brincar - gritou o rapaz, sabendo bem que não era bem àquilo que a mãe se referia.

- Que engraçadinho que tu estás, meu rei. Vai indo para cima. Está na hora do teu banho e nem vale a pena reclamares.

- Mas está aqui o teu amigo...

- O que é que eu te disse?

- Sim, mamã - acatou, para depois lhe lançar um olhar desafiador, enquanto começava a subir as escadas. - Não me apanhas!

- Isso é o que vamos ver, meu rapazinho!

Juliana virou-se para o Rafael, que se mantinha um mero espectador maravilhado com tal quadro familiar e disse-lhe:

- Espera um bocadinho. Vou dar banho ao Dinis e venho já. Ema, - chamou, dirigindo-se á ama, que entretanto se tinha afastado dos dois - diz à Ana, que hoje temos um convidado para jantar.

- Aquele é o tal de que já me falaste? - perguntou ela, discretamente, quase num murmúrio.

- Sim - respondeu, ruborizando.

Rafael viu-a subir, desaparecendo por um corredor para o seu lado esquerdo e esperou que a empregada lhe disse alguma coisa.

- Deseja beber alguma coisa, enquanto espera pela Juliana? - perguntou ela gentilmente, uma voz suave e calma, indicando-lhe uma sala.

A divisão tinha o mesmo aspecto gélido das anteriores. Estava dividida entre sala de estar e de jantar. Notava-se o nível de riqueza elevado. A madeira de excelente qualidade na mobília, os candeeiros de tecto pareciam conter autênticos diamantes de tão brilhantes e as peças de decoração tinham um aspecto caríssimo.

Ele sentou-se numa poltrona de tecido, com um padrão elegante, que estava colocado de forma estratégica, que lhe permitia tanto ver a sala por completo como o fundo das escadas.

- A Juliana é uma mãe muito atenciosa, sabe? Quando o senhor Filipe morreu, o Dinis tinha poucos meses de vida. Eu vi o quanto ela sofreu com isso, mas conseguiu superar todas as adversidades. É uma mulher admirável! Ficou uma pessoa séria, deixou de ter a capacidade de sorrir como antes, mas acho que isso a tornou mais forte.

Rafael observava a empregada. A cada palavra que ela proferia sobre a Juliana, tinha a certeza de que esta seria definitivamente a mulher que mais o fascinara até àquela altura, sendo que se sentia cansado de relações casuais. Sentia que aquela mulher era um puzzle, um enigma que ele queria desvendar e tinha a certeza absoluta de que não seria desapontado.

- Bem, se não se importa, vou ter que me ausentar um pouco. Esteja à-vontade.

Olhou o relógio. Estava impaciente e incomodado por estar sozinho num local completamente estranho e frio.

Observou cada espaço, cada objecto da sala, enquanto esperava. Aquilo sossegava-o e distraía-o.

As paredes estavam cobertas por um papel creme, com motivos florais. Era nostálgico. Não que a casa dos pais tivesse tal abundância, mas remetia-o para a feliz infância, na longínqua década de oitenta. Entretanto tudo mudara. Os pais tinham-se separado e com isso vieram duas casas diferentes, porque nenhum dos dois se quis manter num mundo de recordações.

Por fim, ouviu uns pequenos passos apressados, vindos do andar superior. Levantou-se da poltrona e saiu para o hall. Deixou-se estar ao fundo da escadaria, vendo o Dinis fugir da mãe, soltando gargalhadas, aparecendo somente vestido com uma calça de ganga e uma camisola fina de maga comprida.

- Dinis, espera - gritou ela - Tens que vestir esta camisola e não podes andar descalço.

- Então, vê se me apanhas. - desafiou-a mais uma vez, deitando-lhe a língua de fora e começando a descer as escadas.

Rafael pensou que ela apareceria com o seu habitual semblante zangado e sério, mas enganou-se. Juliana apareceu no cimo das escadas, despenteada, com as mangas da camisola de algodão arregaçadas, divertida. Não estava aborrecida com as fitas do miúdo.

Dinis parou junto do amigo da mãe e observou-o de alto a baixo. Não era usual terem muitas visitas em casa, a não ser da avó. Tinha finalmente alguém com quem brincar, além da mãe.

- Vem para a sala, vamos jogar - disse, com uns olhinhos pedintes. - Tenho uns jogos novos, mas a minha mãe não sabe jogar.

- Está bem, eu vou brincar contigo, mas tens que fazer a vontade à tua mãe. Ela tem razão, aqui em baixo está frio.  - falou, olhando de esguelha para Juliana, para ver a reacção dela quanto à aproximação dele ao seu filho.




df @ 15:27

Dom, 03/01/10

- Não podes dizer as coisas assim. As pessoas têm os seus problemas...

Ele podia ver que ela travava uma batalha interior para não mostrar qualquer emoção naquele momento, como era habitual. Mas era infrutífera. A dor era visível nos seus olhos castanhos.

- O Filipe era meu marido, por isso posso falar dele assim.

O som de alguém bater à porta fez-se soar, para logo de seguida, a empregada entrar, com o pedido que Juliana tinha feito.

Esse momento de interrupção foi suficiente para ela se recompor.

- Bem, a questão aqui é que eu detenho agora praticamente a parte que pertencia ao Filipe na empresa. Não sou simplesmente uma funcionária, entendes? Só pelo facto de sermos colegas de trabalho já era motivo suficiente para isso, mas acresce que sou tua chefe. - referiu ela, num tom compreensivo, enquanto bebia o café.

- Não aceito esse motivo, Juliana, mas prometo que vou tentar ser compreensivo.

- Então podemos ver as coisas de outra forma ou de uma forma complementar - indagou ela, pousando a pequena chávena branca, com uma delicada linha dourada no topo, em cima da mesa de centro. - Eu não quero voltar a magoar-me.

- Como é que podes dizer isso se nem sequer tentámos? - perguntou ele, fazendo menção de se levantar.

Ela levantou a mão, com o objectivo de o manter afastado.

- À partida já sei que é isso que acontece, Rafael. Olha, eu saí muito magoada da minha relação com o Filipe. Estávamos casados há pouco mais de um ano quando ele se... Eu não sabia que ele estava assim tão mal. Sabia que a relação com os pais dele, especialmente com a mãe, era má, mas... Aquilo era demasiado para ele, mas nunca pensei que... Nunca pensei que ele me deixasse sozinha...

Aquela afirmação era tão verdadeira, tão cruel.

- Deixei de acreditar nas pessoas, Rafael. É tão simples como isso.

'Era mais uma declaração que parecia fazer sentido em relação às suas acções', pensou ele.

- Afastei todas as pessoas da minha vida. Nada do que me diziam parecia ser real. Transformei-me numa pessoa por natureza desconfiada. - admitiu contrariada.

- Não... não tens ninguém?

'Como era possível que alguém conseguisse viver de forma tão solitária?', perguntou-se ele. 'Quer dizer, isso nem sequer era viver, era deixar que os dias passassem, à espera do seu último suspiro de vida...'

- Tenho o José, que era o melhor amigo do Filipe e que se tornou na única pessoa em que confio, porque também foi magoado por ele. Tenho dois irmãos, uma irmã e um irmão, que vivem em Matosinhos e na Maia, respectivamente, mas que raramente visito e me visitam. Mesmo depois destes anos, não consigo... Não consigo sorrir por simpatia, entendes? Não engano ninguém como sou e não deixo que ninguém em engane. - declarou, decidida.

- As coisas não são assim a preto e branco, Juliana. A vida não é assim tão linear.

- Talvez...

Naquele momento permitiram-se olhar mutuamente. Ele viu o rosto triste dela, o olhar vazio e uma mente distante, quase a desabar. Ela viu nele a esperança que já deixara de ter há muito tempo nas pessoas em geral e o desejo de mudar o mundo.

Apetecia-lhe levantar-se e abraçá-la. Não queria continuar a vê-la sofrer daquela maneira. Não a pressionara para aquilo. Ele só queria uma oportunidade de a conhecer...

Decidiu mudar de assunto.

- Qual é o segundo motivo? - perguntou ele.

Naquele preciso momento, ouviu-se a grande porta da entrada abrir-se e depois fechar-se.

 



DESAFIO

Coloquei-vos há tempos o desafio de darem um TÍTULO à nova história que se irá desenvolver nos próximos meses aqui. Ainda não vos dei muita informação, a não ser que as personagens se chamam Rafael e Juliana e que trabalham na mesma empresa. Conforme vou publicando os posts, certamente irão perceber que há muitos segredos para serem revelados...
Além do título, também espero que deixem nos comentários o vosso feedback.
Obrigado
A Gerência

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.


Rubricas:

Além de uma nova história a decorrer no blog, acompanhem também a nova rubrica do blog 'PERDIDOS E ACHADOS DA VIDA', pequenos textos que incidem sobre... Leiam e descubram...

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